quarta, 19 novembro 2014 02:13

Poemas de Joaquim dos Santos Andrade (Pai Andrade)

Joaquim dos Santos Andrade, apelidado de «Pai Andrade», nasceu a 16 de Novembro de 1892 em Murtais, na freguesia de Moncarapacho e faleceu a 2 de Agosto de 1971 no Instituto dos Inválidos do Comércio, em Lisboa. Participou na I Guerra Mundial como cabo miliciano pelo Regimento de Tavira, tendo sido chamado de «o Poeta das Trincheiras». Foi ferido na Batalha de La Lys e feito prisioneiro, tendo sido libertado apenas após o final da guerra.Reproduzimos um dos seus poemas no qual este reflecte a vivência e as experiências da guerra.

ADEUS PORTUGAL

MOTE

Adeus gente de Moncarapacho
Adeus concelho de Olhão
Adeus distrito de Faro
Meu Algarve do coração!

GLOSAS

Adeus casa onde nasci
Adeus mãe que me criou;
Adeus pai que trabalhou
Sempre tanto para mim!
Adeus mulher que eu amei
À beirinha do riacho;
Hoje eu contigo me acho
Amanhã, sozinha estais
Adeus sítios dos Murtais
Adeus gente de Moncarapacho!


Adeus minha vizinhança,
Até que um dia, afinal,
Eu regresse a Portugal
Tenho nisso muita esperança
Isto é apenas mudança,
Não comovam o coração;
Tenho dever e obrigação
Como português de raiz,
De honrar o meu país;
Adeus concelho de Olhão!...


Vou a França combater
As forças desencadeadas,
- Vamos todos camaradas,
Liberdade defender!
Eu também desejo ser
Dos heróis de Santo Amaro.
Meu sentimento é tão raro
Que até choro de alegria
E dizendo: - Até um dia,
Adeus distrito de Faro!...


Adeus fértil lavradio
Das terras à beira-mar,
Onde eu ia passear
Numa lanchinha no rio;
Com as ondas ao desafio
Cantando a minha canção
Nas quentes noites do Verão!
Mas quando a guerra acabar
Eu a ti hei-de voltar
Meu Algarve do coração!...


AOS ALTOS SENHORES DOS ESTADOS

MOTE

Se quereis saber o que custa a guerra
Altos Senhores dos Estados;
Venham passar um Inverno
Nas trincheiras dos soldados...

GLOSAS

Venham fazer a memória
Na luta contra os canhões;
Não é metido nos salões
Que se deixa nome na história.
Só quem luta merece glória,
Não é quem em casa berra;
Esses senhores da Terra
Que arquitectam a luta
Venham patrulhar de escuta
Se quereis saber o que custa a guerra!


Esses grandes imperadores
Da Alemanha, Guilherme Segundo;
Dizem que é de todo o mundo
O mais herói dos lutadores;
Vinde mostrar esses valores
Junto dos vossos soldados.
Se quereis galões dourados
Ganhai-os pelo trabalho,
Passando frio sob orvalho,
Altos Senhores dos Estados!


Comei um quarto de pão
Tal como eu, todos os dias;
Saiam dessas regalias
Que ganhásteis sem razão.
Formai lestos um pelotão
Fazei o exercício moderno;
Com ar altivo e paterno
Ide já para as primeiras linhas;
Com as roupas iguais às minhas,
Venham passar um Inverno!

As medalhas que trazeis pendidas
São minhas e dos camaradas;
Não queiram honras achadas
À conta das nossas vidas!
Essas pensões garantidas
Pertencem aos desgraçados.
Seriam por mim louvados
Se fizessem o que eu faço
Lutando de braço a braço,
Nas trincheiras com soldados!...

 

COMBATENDO OS PIOLHOS

MOTE

Tenho uma divisão de piolhos
Já estou pronto a combater
No dia da ofensiva
É que se há-de poder ver!

GLOSAS


Para guardar a fronteira
Tenho as baterias postas
E no meio das minhas costas
Estão abrindo uma trincheira.
É soldadesca guerreira
E gordos como repolhos,
Mas é só abrir-lhes os olhos
Marcham com grande disciplina
De espingarda e carabina
Tenho uma divisão de piolhos!...

Quartel-General, a camisa
Ceroulas, campo de instrução;
A camisola o barracão
Onde o plano se realiza!
Já mandei pedir à Galiza
Se me poderão socorrer
(Com munições ou comer)
Se me faltar em um período
Porque o mais eu tenho tudo
Já estou pronto a combater!...

É tamanha a laboração
Que não posso dormir de noite,
Mesmo que me afoite
A meter alguns na prisão.
Tenho um alferes e um capitão
Com uma táctica muito viva
E uma prática tão activa
Que não param um poucochinho,
Como ficará o meu corpinho
No dia da ofensiva?...

Tenho tropas de vários anos
A mor parte mobilizada;
Uma é branca, outra encarnada,
Outra preta, de africanos.
Já deitámos os nossos planos
(Como se devia combater)
Para o inimigo prender
Sem haver grande baralha;
E no meio da batalha
É que se há-de poder ver!...

A FESTA DA PÁSCOA PASSADA NA GUERRA

MOTE

Na Quinta-Feira de Endoenças,
Na Sexta-Feira de Paixão,
Aleluia sem alegria
Páscoa sem consolação!

GLOSAS

Eu sei que minha Mãe chora
E que meu Pai me lamenta,
E eu vejo-me nesta tormenta
Sem esperanças de me ir embora!
Se eu fosse a casa agora
As alegrias eram imensas;
Até as próprias crianças;
Que eu sei que me adoram,
Cantariam. Assim choram
Na Quinta-Feira de Endoenças!...

Eu também choro onde estou
E mais terei de chorar,
Enquanto não vá beijar
Essa Mãe que me criou;
Esse Pai que trabalhou
Para a minha educação;
Essa irmã e esse irmão
A quem amo ternamente
E dos quais estou ausente
Na Sexta-Feira de Paixão!...

Devíamos também respeitar
Na guerra, os dias sagrados;
Dar licença aos soldados
Para a Deus irem orar.
Não os obriguem a trabalhar
Porque isso é cobardia,
Sujeitos à fuzilaria
Nesta tão medonha guerra;
Todos passam nesta terra
Aleluia sem alegria.

Há ordens que não consigo
Encontrar no Regulamento;
Palavras que turvam a mente
Referindo-se ao inimigo.
E quantos sofrem comigo
Por essa mesma razão;
Porque sentem no coração
Frases que são punhaladas,
Memórias atraiçoadas
Páscoa sem consolação!...

NAS TRINCHEIRAS

MOTE

Metido em mísera trincheira,
Ouvindo o troar do canhão
Vou responder à tua carta
Querida esposa do coração.

GLOSAS

Não sei quando há-de terminar
Esta ausência tão custosa
E venha a hora ditosa
De te tornar a abraçar
Só quando rebentar
O eixo desta barreira,
E desapareça a cegueira
Desta luta - o tirano autor;
Que me causa tanto horror,
Metido neste trincheira!...

Eu ouço zumbidos estranhos
Atravessando a atmosfera;
Eu vejo revolver-se a terra
Com os morteiros tamanhos;
Cercado de fogos medonhos
Se vê o meu coração;
Eu peço a Deus perdão
E à Virgem Maria socorro
A ver se ainda não morro
Ouvindo troar o canhão!...

Mas sempre há uma esperança
É nessa crença que eu vivo
Porque não vejo nenhum motivo
De morrer assim criança,
A saudade é uma lança
Que risca o espaço de prata
Oh! que vida tão ingrata
Estou próximo da sepultura
E vivendo na amargura
Vou responder à tua carta!...

Escrevo-te com mil carinhos,
Já que não pode ser mais,
Dá saudades aos nossos pais
E recebe ternos beijinhos
Roga a Deus e aos anjinhos
E ao Santo João
Que me leve em salvação,
P'ra minha terra natal
Querida esposa do coração!...

 

SAUDADES

MOTE

Oh! Meu querido Portugal
Santa Terra onde nasci
Minha Pátria tão saudosa
Como eu me lembro de ti!...

GLOSAS

Como estranho tua paisagem
E dos pássaros, a harmonia;
Como eu grito de alegria
Ao recordar a tua imagem,
Ao encontrar de passagem
O teu nome num jornal;
Oh, que saudade mortal,
Que me vem ao pensamento,
Por não te ver há muito tempo
Oh, meu querido Portugal!

É verdade que me sinto bem
Nesta terra de pergaminhos,
Ai... mas faltam os carinhos
Dessa Pátria - minha mãe.
Mas que fazer, porém,
Se a sorte me trouxe aqui?
Se te vim defender a ti
Ou a tua causa aliada,
Defender-te-ei minha amada,
Santa Terra onde nasci!...

Já lá vem o sibilar
O Inverno no seu espaço,
E eu desejo o teu regaço
Sem me poder abrigar;
E, assim, tenho a esperar
Uma noite triste, invernosa,
Na trincheira tão custosa,
O inimigo façanhudo,
mas por ti eu farei tudo
Minha Pátria, tão saudosa!...

Meu Algarve, doce brinquedo
De mar quente e assimétrico,
Teu clima atmosférico
Perpassando no arvoredo,
Faz um lar tão brando e meigo
Não é como aqui, "Compris"?
Onde se diz "beaucoup, merci"
Muito obrigado em português;
Com saudade e honradez
Como eu me lembro de ti!...

FERIDO NA FRENTE DE BATALHA

MOTE

Fui ferido, fui prisioneiro
Perdi minha liberdade,
Quem me pode salvar é Deus
E a Senhora da Piedade!...

GLOSAS

Oh, guerra tirana e vil
De génio feroz, agreste,
Repara no que fizeste
No dia 9 de Abril!
Como eu há mais de mil
Do vil golpe, teu herdeiro,
Teu orgulho traiçoeiro
Que me ia roubando a vida
Tão longe da terra querida
Fui ferido e prisioneiro!...

Era triste o panorama
Com a atmosfera nublada
Vinha perto a madrugada
Quando começou o drama.
Rebentou a terrível chama
Que avulta a crueldade
Daqueles que sem piedade
Fazem as vítimas sofrer,
E é causa de hoje dizer:
- Perdi a minha liberdade!...

Quando contra a um velho muro
Olhava o inferno em redor,
Veio um ferro abrasador
Derramar meu sangue puro,
O canhão soava duro
Ecoando até aos céus,
Parecia rasgar os véus
Tecidos pela Natureza.
Se esta vida é incerteza,
Quem me pode salvar é Deus!...

Vendo meu sangue verter
Só pedia a Deus a vida;
Para que minha mãe querida
Ainda me tornasse a ver!...
Que pena eu já morrer
Na flor da tenra idade,
Sem gozar a mocidade
Na terra que tão longe está
Mas Deus me salvará
E a Senhora da Piedade!...

PRISIONEIRO NO HOSPITAL

MOTE

Já não tenho quem me alegre
Vivo triste e sem alento
Sou um pobre prisioneiro
Cheio de mágoa e sofrimento!

GLOSAS

Em vão, eu tento sorrir,
Quando vejo um passarinho,
Andar de ramo em raminho
Seu trinado fazendo ouvir!...
Parece até repetir:
- Ditoso é o que consegue
Ter uns lábios que lhe regue
O seu rosto em toda a hora,
Depois voa e vai-se embora,
Já não tenho quem me alegre!

Vem a noite e vã ternura
Vai-se o dia moribundo,
E eu fico meditabundo
Pensando na sepultura,
Repensando a desventura
Que me traz o sofrimento,
Ouvindo o rugir do vento
Em noites de frio Inverno,
E tão longe do lar paterno
Vivo triste e sem alento!...

Já vai alta a madrugada
E eu sem adormecer
Pois não me posso esquecer
Dessa Pátria, minha amada!
Minha família adorada
De quem era companheiro;
Hoje só, no cativeiro,
Outros sofrendo pena igual,
Com tantos ais, tanto mal,
Sou um pobre prisioneiro!...

Quando ia principiando
Uma nova felicidade,
A má sorte sem piedade,
De tudo me está privando,
Por meus pais sempre chorando
Este triste desenlace,
Correm-me lágrimas pela face
Pela forma como vivo,
Neste hospital cativo,
Cheio de mágoa e sofrimento!...

 

 A PAZ!

MOTE

Em 11 de Novembro soou
Essa nova tão desejada
Alegrem-se, ó prisioneiros
Temos a guerra acabada!...

GLOSAS

Qual não foi a alegria
Que todos nós sentimos
Quando essa nova ouvimos
Em explosão de alegria,
Haja paz e harmonia
Quando a Presidência assinou
Fez saber e publicou
A folha do armistício,
Terminou o sacrifício,
Em 11 de Novembro soou.

Esses tristes semblantes
Pela guerra envelhecidos,
Tornaram-se coloridos
Mesmo alegres e radiantes,
E até os agonizantes
De alma dilacerada
Tão longe da terra amada
Se mostram de bom agouro,
Para todos foi um tesouro
Essa nova tão desejada!...

Terá a sua liberdade
Todo o prisioneiro de guerra,
Cada qual p'rá sua terra
Marchará com brevidade!
Irá matar a saudade
Desses tempos traiçoeiros
Que nos fizeram herdeiros
Desta fúria mundial,
Que teve hoje o seu final,
Alegrem-se , ó prisioneiros!...

Nossos campos se vestirão
De flores e belos frutos,
O povo despirá os lutos
Que envergava com paixão,
Nossos pais do coração
E toda a família amada
Ao verem a hora chegada
Do fim da guerra atroz,
Gritarão com todos nós:
- Temos a guerra acabada!...

In António Telo, «As Forças Armadas ou a República Decapitada» in História de Portugal. Dos tempos pré-históricos aos nossos dias, dir. João Medina, Volume XV, Ediclube, 2004, pp.61-70.

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